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ENTREVISTAS

Entrevista com Nando Reis
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José Fernando Gomes dos Reis, ou simplesmente Nando Reis, nasceu no ano de 1963, na capital de São Paulo. Começou sua carreira musical como baixista do grupo Titãs em 1982, onde sempre se destacava como um dos principais mentores, compositores e cantores da banda. Seu gosto pela composição e a facilidade que possuía rendeu-lhe trabalhos até mesmo fora do grupo, fazendo trabalhos conjuntos com Marisa Monte, Carlinhos Brown e ainda sendo o produtor de Cássia Eller. Hoje o cantor atravessa uma nova fase na vida, está no sexto trabalho solo e no segundo com a banda os infernais, e afirma: “Sai do Titãs porque não queria mais me restringir, queria decidir tudo sobre a música”.Um grupo anda na direção onde todos querem, hoje, ando na direção que eu quero”.

Conheça um pouco do cantor, compositor e produtor.

1)Você teve o apoio de sua família, ao abandonar os estudos e seguir no meio musical, você acha que um artista consegue romper as dificuldades e conseguir atingir o sucesso sem ter este o apoio?
R: Todo mundo deve conseguir fazer o que deseja na vida, é muito melhor você receber apoio das pessoas que você ama e por quem você é amado. Quando se é ainda adolescente, a sua vida está se formando, é um período cheio de dúvidas e se seus pais incentivarem atenua as angústias quando aparecem decisões na sua vida, ainda mais quando for uma onde se parece que terá que fazer uma escolha que vai ser definitiva, o que é uma ilusão pois nada é definitivo. Pela minha história posso dizer que sempre tive meus pais ao meu lado, acho que o mais importante na vida é você fazer aquilo o que acredita e muitas vezes temos que ir até contra os pais, isso faz parte do processo de desenvolvimento de aquisição da independência. Então não há uma regra para nada na vida, nem para este caso.

2)E foi com este pensamento em fazer o que acredita que você arriscou saindo do famoso grupo Titãs e foi fazer carreira solo?
R: Acho que tudo tem risco, o risco é proporcional ao tanto de desafios que você se propõe. A minha decisão de largar os Titãs, tinha muitos dados, motivos, havia uma convicção que mesmo correndo riscos era algo fundamental. Existem momentos na vida que você pode fazer uma opção, onde ou se arrisca ou opta em levar uma vida mais acomodada, na minha modesta opinião isto sempre pode ter um preço mais tarde, que é o de ser feliz, isso é o que importa. Todas as outras questões que externamente possam parecer mais significativas como dinheiro, segurança, tudo isso é relevante, você tem que ser fiel consigo. Eu tinha certeza que meu ciclo com o Titãs havia se encerrado, muito mais por questões da minha pouca disposição para me abdicar, pois quando você trabalha numa equipe como o Titãs, é preciso que você se submeta a agenda, a decisões da maioria. É assim que funciona um grupo, pelo menos nesse caso, pois era uma banda que não tinha liderança. Eu estava me tornando uma peça desestabilizada. Pouco me importei se iria deixar de tocar para setenta mil pessoas e fosse tocar para setenta. Não adianta de nada subir ao palco e estar sendo falso consigo. Isto é ser infeliz. Tinha um risco, tinha, hoje passado quatro anos, eu só tenho mais convicção de que quando fazemos o que acreditamos o risco é superado.

3)E como ficou o seu relacionamento com a banda depois de sua saída?
R: Todas as separações sejam elas profissionais, emocionais, que envolvem uma quantidade de sentimentos muito grande, elas machucam, são traumáticas, deixam ferimentos, cicatrizes. Isto aconteceu, o fato de nossa relação ser aberta e pública, evidentemente coisas tolas foram ditas, da minha parte foram publicadas, e é claro que isto custou um tempo para que a gente conseguisse botar as coisas dentro de uma nova perspectiva, como estão agora, eu amo aqueles caras, é muito mais que uma relação profissional, eles fizeram parte da minha vida, fazem parte da minha vida, isto está muito claro para todos nós. O próprio desenvolvimento de uma carreira e da outra, mostrou que foi uma decisão correta de minha parte, e que conseguimos andar cada um com suas próprias pernas, sem prejuízo para nossa história. Eu tenho o maior orgulho de ter participado, de tudo que fizemos, estamos numa boa, ainda se encontramos e está tudo ótimo entre nós.

4)O fato de você ser um ex-Titãs ajuda agora na sua carreira solo ou Nando Reis já possui sua imagem sozinho?
R: Eu sempre fui o Nando, mesmo sendo um Titãs, dentro do grupo durante muito tempo fiz discos solo e tive relações de parcerias de trabalho que muitas delas foram muito bem sucedidas, fiz músicas que foram gravadas por outros artistas. Claro que estou muito associado ao Titãs, sempre estarei, fico feliz de ter esta tarja. Acredito que para sempre serei um Titãs, este Ex-Titãs não se enquadra bem. Mas tenho consciência de que uma parte de meu trabalho foi planejada para reunir em torno de meu nome, as realizações profissionais que as pessoas não sabiam que eram de minha autoria, e que isso seria muito importante para a consolidação e a viabilização de um trabalho individual. Dentro deste raciocínio logo que sai fiz um disco Letra A, que era muito voltado para estabelecer uma sonoridade, me mostrar como compositor, produtor. Não era porque sai do grupo que iria me transformar numa outra coisa, sempre fui assim, ruivo de óculos, depois fiz um disco ao vivo, também com a consciência de que as pessoas não sabiam que muitas músicas que eu tocava nos meus shows eram de minha autoria, não tinham idéia que a sonoridade da minha banda era essa, o apoio da MTV foi muito importante pois ampliou meu público, mostrou meu trabalho a uma quantidade maior de pessoas, para poder tocar num maior número de lugares. Então formam pequenos espaços, degraus que de certa maneira eu tinha idéia que eram necessários para eu construir espaço próprio dentro daquilo que é o mercado. Eu tenho condições, eu tenho uma banda, uma equipe grande, eu sei o quanto isso é poderoso para fazer exatamente o que eu quero. Eu gosto de chegar numa cidade que eu nunca me apresentei, trazer todo mundo, apresentar um show com as mesmas condições, com as mesmas características que eu apresentaria em qualquer lugar. Mas isso não depende só do desejo, depende de uma realidade, e para isso fui pacientemente, humildemente, contando com a competência daqueles que trabalham comigo, traçando os caminhos para chegar aqui como Ex-Titãs, como parceiro da Cássia Eller, como compositor de Onde Você Mora, mas principalmente como Nando Reis e os infernais.

5)Quem é Nando Reis, quais suas qualidades, costumes, defeitos?
R: Os meus defeitos eu vou me abster, são tão grandes e numerosos, mas não cabe aqui dizer. Eu sou um cara normal, faço música por uma opção profissional, graças ao meu talento, e devido às coincidências e sortes que você precisa ter na vida. Sou um pai de família tenho 4 filhos mais 1 que está a caminho, tenho as mesmas preocupações que todos têm com relação à violência, com a responsabilidade que precisamos ter com aquilo que a gente faz. Gosto de passar a idéia de que cada um de nós deve se reconhecer como indivíduo, saber quem é, o que é, assumir seus defeitos, se colocando no mundo sem falsidades.

6)Quando você compõe as músicas, existe alguma relação das letras com sua vida pessoal?
R: Tem sim, muita coisa senão a totalidade parte de experiências pessoais, nem sempre o que escrevo descreve o que aconteceu, pois música independe, não são reportagens ou crônicas. O que eu conto são conflitos que uma pessoa tem, sobre a busca sobre o que a gente é sobre o que a gente quer. Todas as mudanças da minha vida aparecem no meu trabalho, com maior ou menor grau de transparência. Mas a graça nisso é que ninguém sabe se é verdade ou não. Ao mesmo tempo posso falar alguma coisa, a pessoa pode ter para imaginar o sentido disso, ou seja, a mesma liberdade que tenho para criação, você tem para interpretação. As pessoas lêem e entendem aquilo que elas associam com o que é a vida delas.

7)Como funciona o processo de criação musical?
R: Eu faço as músicas no violão, acredito que nenhuma fiz no baixo, é um momento de concentração, em geral fico sozinho no quarto, quase sempre de hotel, pois viajamos bastante, sou um pouco arcaico, não gosto de usar computador, gosto de usar um gravador de bolso, ou papel e caneta. Eu faço tudo meio que junto, letra, melodia, uma puxando a outra. Tenho uma boa memória para melodias.

8)Como é o Nando de hoje com o Nando anos atrás iniciando sua carreira?
R: Ele ta um pouco mais careca, com barbas brancas, de certa forma a minha preocupação, a minha relação com o mundo mudou, eu tinha 16 anos agora tenho 43, tenho outra vida, outra consciência, o mundo mudou também. Mas mudei muito a maneira de procurar me expressar, seja cantando “Pomar” ou outras músicas, a minha inserção no mundo se dá desta forma.

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